França: “casamento” e adoção por gays criam polêmica
Poucos temas
dividem com tanta clareza os franceses quanto a recente polêmica sobre o
direito ao casamento e adoção por casais homossexuais. Os progressistas
argumentam que a concepção tradicional da família mudou: a procriação não é
mais a principal motivação para o casamento e um casal homossexual pode
desempenhar com igual ou até melhor competência o papel da maternidade ou
paternidade que os héteros. Em via oposta, os detratores do projeto de lei que
começou a tramitar nesta semana no Parlamento francês insistem que uma criança
tem direito a um pai e uma mãe, e que ninguém sabe ao certo as consequências de
uma família com dois pais ou duas mães para a educação infantil.
A polêmica
aumentou há quase um ano, durante a campanha eleitoral do atual presidente, o
socialista François Hollande, que colocou o projeto como uma de suas
prioridades de governo. E se acentuou em janeiro, com a proximidade da análise,
pelos deputados e senadores, do texto que autoriza as duas mudanças no Código
Civil. Fazia anos que um tema de cunho social não causava tanta divergência no
país ao ponto de levar milhares de pessoas às ruas para manifestar adesão ou
oposição à proposta - talvez a última vez tenha sido por uma razão semelhante,
quando, há 13 anos, o país abriu as portas da união civil estável aos
homossexuais.
Em 1997,
explica a socióloga Irène Théry, embora a sociedade já estivesse em plena
evolução, a função social do casamento ainda era resultar na procriação. A
chamada “presunção de paternidade” unia, portanto, um homem e uma mulher sob a
instituição do matrimônio, enquanto que a união estável dava direitos civis
semelhantes aos casais homossexuais. [...]
O perfil
típico dos opositores ao projeto é de homens de direita moderada e com mais
de
60 anos, apontam pesquisas. E ao contrário do que se possa imaginar, o fator
“religião” não é determinante neste posicionamento - 54% dos católicos
franceses aprovam o direito ao casamento gay e 41%, a adoção. No centro do
debate estão as dúvidas sobre os referenciais masculinos e femininos na
formação de um indivíduo e as influências sociais de dois pais ou duas mães na
vida de uma criança. [...]
“Na
realidade, o projeto de lei favorece os pais, não as crianças. Ele é fundado em
um discurso de adultos, segundo o qual a criança poderá compreender a sua
verdadeira origem mais tarde, quando for maior”, analisa [Christian Flavigny,
responsável pelo departamento de Pscicanálise infantil do prestigiado Hospital
Salpêtrière, em Paris]. “Porém esse nível de explicação não será acessível para
ela enquanto ela constrói a sua filiação, que é também a sua identidade.”
Com ou sem
lei, o fato é que entre 24 e 40 mil crianças crescem ou cresceram em uma
família homoparental na França. Mais do que ninguém, elas aguardam com
impaciência o dia 12 de fevereiro, data prevista para a votação do projeto de
lei na Assembleia Nacional francesa.
(Terra)
Nota: Essa discussão é muito recente e poderá se dar o
caso de que, daqui uns dez ou vinte anos, os “especialistas” defensores da
adoção por “casais” gays admitam o erro, como aconteceu com tantas tendências e
modismos do passado. Mas aí será tarde demais para milhares de pessoas que não
tiveram o referencial de uma família verdadeira, formada por um pai e uma mãe.
O problema é que, nessa discussão, alguns sempre apelam para os extremos: (1) é
melhor ser adotado por um bom “casal” homossexual do que por um mau casal
hétero; não, é melhor ser adotado por um bom casal hétero; (2) há muitas
crianças esperando para ser adotadas; mas também há muitos casais hétero nas
filas de adoção. E por aí vai. De qualquer forma, é interessante notar que a
discussão do assunto, na França, não está sendo “travada” por “fundamentalistas
religiosos”, como em nossas terras alguns procuram destacar. O país está
polarizado porque muita gente não quer ser irresponsável com o futuro de tantas
crianças com base numa experiência arriscada, inconsequente. Devíamos seguir
esse exemplo e parar de embarcar em modismos irrefletidos que posam de
tolerância. As crianças não merecem pagar esse preço. (Em tempo: quero
reafirmar aqui que não sou contra a união estável de homossexuais. Cada um faz
o que quer de sua vida. Mas sou contra duas coisas: (1) a adoção de crianças
por casais homossexuais, porque, nesse caso, uma pessoa ainda incapaz de
decidir por si mesma terá seu destino decidido por outros, e (2) chamar essas
uniões homossexuais de “casamento”; casamento é um conceito bíblico que diz
respeito à união de um homem com uma mulher sob as bênçãos de Deus. Essa é
minha opinião, e acho que ainda tenho o direito de manifestá-la.)[MB]

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